Nariz fora d’água

  • 5 de junho de 2015

Por Miguel Setembrino E. de Carvalho – Pres. Conselho Consultivo SECOVI/DF

Quando o setor imobiliário brasileiro já flertava com o fundo do poço, com o caos, o colapso total, eis que nos últimos dias, o Conselho Monetário Nacional (CNM), anunciou um providencial remanejamento de R$ 22,5 bilhões destinados ao crédito imobiliário, justamente em um momento de altas nos juros e de restrições nos financiamentos habitacionais.

Na prática, os bancos poderão usar parte maior dos recursos que deveriam ficar retidos na autoridade monetária (Banco Central) e destiná-los para empréstimo para compra de imóveis. A liberação deve beneficiar, principalmente, a Caixa Econômica Federal que detém uma participação de 70% do mercado.

Outra boa notícia, veio do Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), que anunciou a liberação de quase R$ 5 bilhões a mais este ano, para financiamento da casa própria a cotistas do FGTS que ganham mais. A medida, como se sabe, veio acompanhada, no entanto, da redução do teto do valor do imóvel de R$ 750 mil para R$ 400 mil.

Na visão do governo, tais medidas são necessárias para recuperar a construção civil e impedir uma retração ainda maior da que se observava e foi entendida pelo mercado como uma sinalização de que o governo resolveu olhar para o setor, que até o momento estava carente de ações efetivas.

Alguns economistas, no entanto, apresentam algumas ressalvas, entendendo que na verdade, o governo favoreceu ao crédito direcionado, àquele destinado a setores específicos da economia,  em detrimento ao crédito livre, àquele destinado para qualquer tomador de empréstimo.

 

Mesmo assim, segundo eles, a medida é fundamental para evitar que um setor importante da economia, como o mercado imobiliário, sofra ainda mais com a elevação da taxa Selic, que chegou a seu nível mais alto desde 2009 (13,5%), e estimule os investimentos.

Todavia, prevalece um entendimento comum no mercado de que a retomada dos investimentos depende muito mais do sentimento popular positivo em relação à economia do que dessas ações isoladas, uma vez que não adianta oferecer crédito se o empresário, por exemplo, não quiser investir na construção de imóveis porque a demanda está baixa, em função de a diminuição dos recursos da poupança ter sido determinante para os bancos aumentarem os juros dos financiamentos imobiliários.

O reforço de crédito traz um recurso que antes não existia e dá fôlego para o Sistema Financeiro Habitacional (SFH) e tem chances de durar até o fim do ano, mas, sem uma retomada da economia, novas medidas paliativas serão necessárias.

Enfim, com as medidas propostas, o governo espera aquecer o setor que está com os estoques altos e demitindo trabalhadores. Em 2014, pela falta de perspectiva de novos lançamentos, foram fechados 110 mil postos de trabalho na construção civil.

A expectativa é de que, com mais recursos disponíveis, mais pessoas tenham acesso ao crédito imobiliário, embora ainda não haja sinalização de como esse dinheiro será usado, de como os bancos irão financiar, quem irão financiar, e se as taxas de juros voltarão aos patamares anteriores.

No momento, conseguimos botar o nariz para fora d’água, ainda estamos respirando!!!

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